Para um Regresso às Aulas tranquilo
Por: Filipa Nogueira, Psicologa Clinica
Temos tendência a sentir o mês de Setembro de forma ambivalente – por um lado, a nostalgia pelo fim das férias, do calor e dos dias mais longos, mas, por outro, a expetativa do regresso à rotina, dos reencontros com amigos e professores e das novas oportunidades que o início do ano-letivo oferece. Depois de semanas de maior liberdade e menor rotina, voltar a horários e responsabilidades pode ser um desafio para muitas crianças. É natural que a curiosidade e o entusiasmo do regresso caminhem lado a lado com a ansiedade – e é aí que o papel dos adultos se torna fundamental!
Iniciar esta aventura com uma boa preparação escolar pode parecer, à primeira vista, algo simples, mas sem dúvida que fará toda a diferença. O momento de comprar e organizar o material escolar, por exemplo, são oportunidades preciosas para envolver as crianças no processo: deixem que escolham a cor da mochila, se querem cadernos ou dossier ou se querem duas ou três das canetas virais do momento. Mais do que simples escolhas, acaba por ser um momento em que lhes mostramos que as suas opiniões são válidas e que podem ter algum controlo sobre o seu próprio percurso. Esta participação ativa não só reforça o sentido de responsabilidade, como também promove o entusiasmo, a motivação, a autonomia e um verdadeiro sentimento de pertença à Escola.
Para além do material escolar, esta preparação deve incluir também o ajustar progressivo de horários e rotinas, isto porque a previsibilidade gera segurança, ajudando a prevenir momentos de maior desregulação emocional. Quando sabemos o que podemos esperar, sentimo-nos mais confiantes. Mas claro, não esquecer que um equilíbrio saudável entre a rotina e tempo livre contribuem para que a criança enfrente as dificuldades do dia-a-dia com mais energia e motivação.
Bem-estar que ensina
Na escola, a construção de um ambiente acolhedor deve ser entendida como uma responsabilidade partilhada por toda a comunidade educativa. Desde os professores e auxiliares até às famílias e direção, todos têm um papel essencial, para que cada criança se sinta segura, respeitada e valorizada. A promoção de um ambiente de escuta, empatia e cooperação favorece a aprendizagem e o bem-estar e quando a escola se organiza como uma verdadeira comunidade, onde os adultos dão o exemplo, as crianças aprendem de forma mais significativa.
Por esse motivo, é igualmente importante lembrar que para apoiar as crianças, os adultos precisam de cuidar do seu próprio bem-estar. Pais e comunidade educativa disponíveis emocionalmente conseguem apoiar melhor, reforçando o fortalecimento da autoestima dos mais novos e promovendo a criação de vínculos seguros e relações de maior confiança. Por exemplo, quando valorizamos o esforço, mais do que o resultado, estamos a transmitir-lhes que o erro faz parte do processo de aprendizagem e que cada tentativa deve ser reconhecida e celebrada.
No fundo, a tranquilidade no percurso escolar não significa ausência de desafios, mas sim a capacidade de os enfrentar de forma equilibrada e confiante. Ao proporcionar-lhes um ambiente estável, afetivo e estimulante, estamos a contribuir não só para o sucesso escolar, mas também para o bem-estar emocional e social. Como já dizia Alice Miller: “Adultos que oferecem presença tranquila e empática ajudam a criar indivíduos emocionalmente fortes.”. Vamos garantir o futuro, trabalhando com mais tranquilidade no presente?

